O El Niño de 2026 continua ganhando força e pode se tornar o mais intenso já medido desde 1950. Na atualização de 8 de outubro, o Centro de Previsão Climática da NOAA, agência dos Estados Unidos, registrou anomalia de +2,1 °C na área do Pacífico usada como referência e estimou em mais de 83% a chance de o fenômeno seguir entre forte e muito forte até março de 2027.
No Brasil, o efeito previsto para outubro, novembro e dezembro é de dois extremos: chuva acima da média no Sul, com risco de cheias, e seca com calor e risco de fogo no centro-norte. O quadro está no boletim Painel El Niño, publicado em 30 de setembro pelo Inmet com outras seis instituições federais.
O que é o El Niño e por que este é diferente?
O fenômeno é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, acompanhado de mudanças nos ventos e na distribuição das chuvas. A intensidade é medida pelo tamanho da anomalia de temperatura do mar: de 0,5 °C a 0,9 °C é fraco; de 1,0 °C a 1,4 °C, moderado; a partir de 1,5 °C, forte; acima de 2,0 °C, muito forte, conforme a escala usada pela Defesa Civil de Santa Catarina.
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A NOAA calcula que a chance de um evento histórico, com +2,5 °C ou mais na média de três meses, é de 54% para setembro a novembro, 83% para outubro a dezembro e 70% para novembro a janeiro. Em partes do Pacífico leste, a água já ficou mais de 4 °C acima do normal.
A agência americana declarou as condições de El Niño em 11 de junho. Desde então, o aquecimento do oceano só aumentou.
Onde deve chover mais?
A previsão conjunta do Inpe, do Inmet e da Funceme para o trimestre aponta maior probabilidade de chuva acima do normal na Região Sul, em parte do Sudeste e em áreas do leste do Nordeste. No Sudeste, o boletim cita São Paulo, Rio de Janeiro e o centro-sul de Minas Gerais.
No Sul, os rios já subiram. Segundo o boletim, houve inundações em cidades gaúchas do Vale do Taquari e da bacia do rio Caí e também em Santa Catarina. Só em 2026, o Serviço Geológico do Brasil já emitiu mais de 190 alertas hidrológicos para o Sul. O risco de cheias deve continuar, mas tende a diminuir até dezembro.
Em Santa Catarina, a Defesa Civil estadual e a Epagri/Ciram passaram a tratar o evento como muito forte em 29 de setembro. Os órgãos preveem volumes acima da média em todas as regiões catarinenses, principalmente em outubro e novembro, com mais temporais, vendavais e granizo.

Onde a seca deve piorar?
No centro-norte, a combinação de pouca chuva e calor tende a aumentar a falta de água no solo. Dados parciais do Cemaden citados no boletim mostram que os municípios em seca extrema passaram de 4 para 24 entre agosto e setembro. Os em seca severa foram de 153 para 197, e o aumento se concentrou em Amazonas, Bahia, Amapá, Alagoas e Sergipe.
O Nordeste tem 16% da área em seca grave, o pior quadro do país. No Norte, a situação piorou rápido em Roraima, no Acre e no Amazonas: os rios Branco e Negro estão baixos, e algumas cidades já enfrentam problemas para captar água e para navegar.
As chuvas regulares no centro do país devem começar entre o fim de outubro e meados de novembro, segundo a previsão.
Vai fazer mais calor?
Na maior parte do país, sim. Os modelos brasileiros indicam temperatura acima da faixa normal em quase todo o território até dezembro. A exceção é o extremo sul do Rio Grande do Sul, onde a tendência é de valores abaixo do normal. No Norte, calor e pouca chuva aumentam o risco de as queimadas se espalharem.
O que muda para o agro e para a energia?
- Centro-Oeste e Matopiba: a falta de chuva em Mato Grosso (centro-norte), Goiás (norte), no Distrito Federal e no Matopiba pode atrapalhar o plantio da soja; no semiárido, faltam forragem e água para os rebanhos.
- Café: em partes de Minas Gerais e no norte capixaba, o calor e a restrição de água podem prejudicar a florada do arábica e o desenvolvimento do conilon.
- Sudeste: a chuva acima da média em SP, RJ e no centro-sul de MG tende a ajudar o plantio de soja e milho e a brotação da cana-de-açúcar.
- Sul: o solo úmido ajuda o milho, porém a chuva em excesso pode espalhar doenças no trigo, atrasar a colheita no Paraná e dificultar o plantio de soja e arroz irrigado.
Nos reservatórios das hidrelétricas, o quadro por enquanto é confortável. Em 23 de setembro, o volume equivalente do Sistema Interligado Nacional estava em 65,9%, o segundo maior para a data desde 2015, segundo dados da ANA reunidos no boletim. Os reservatórios do Sul estavam com 81,4%.
Todo El Niño forte traz desastre?
Não necessariamente. A Defesa Civil catarinense lembra que as enchentes do Vale do Itajaí em 2023 e do Rio Grande do Sul em 2024 ocorreram com um El Niño moderado e foram mais graves que as de 2015, quando o fenômeno esteve entre os mais fortes já registrados. Para o órgão, os grandes eventos dependem da combinação com outros fatores do clima.
Como receber alertas da Defesa Civil
- SMS: mande o CEP para 40199;
- WhatsApp: mande o CEP para o número (61) 2034-4611;
- Telegram: @defesacivilbrbot;
- avisos meteorológicos do Inmet: avisos.inmet.gov.br.
Em emergência, ligue 199 (Defesa Civil) ou 193 (Corpo de Bombeiros).
A próxima atualização da NOAA sobre o fenômeno sai em 12 de novembro, e o Inmet publica um novo boletim do Painel El Niño todo mês.



