Mais de 58 mil câmeras do Smart Sampa, o sistema de videomonitoramento da capital paulista, tiveram dados de acesso disponíveis na internet por cerca de 11 meses. A Prefeitura de São Paulo admitiu o vazamento de informações sigilosas, mas nega que a plataforma tenha falha de segurança.
Segundo a gestão municipal, a origem foi um servidor da área de segurança. Ele foi afastado e é investigado pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana (GCM). A Prefeitura atribui o caso ao compartilhamento ilegal de dados feito por esse servidor.
O caso veio à tona em reportagem do UOL publicada nesta terça-feira (20). De acordo com o jornal, o material estava num repositório aberto, que saiu do ar depois da denúncia.
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O que ficou exposto no Smart Sampa?
Segundo o UOL, o repositório reunia 181 logins e senhas de usuários autorizados a entrar no sistema. Havia ainda dados de mais de 6 mil agentes de segurança e instruções para reproduzir uma interface de acesso em computadores e celulares.
Com esse material, a reportagem diz ter visto imagens ao vivo de câmeras espalhadas pela cidade. Os locais citados são:
- 1.157 câmeras em Unidades Básicas de Saúde (UBS);
- 427 câmeras em Escolas Municipais de Educação Infantil;
- 396 câmeras em Escolas Municipais de Ensino Fundamental;
- 118 câmeras em Centros de Atenção Psicossocial (Caps), com 11 Caps infantis e 31 infantojuvenis na relação;
- 80 câmeras em hospitais;
- 68 câmeras em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
Uma vez dentro da plataforma, era possível pesquisar nomes, CPFs e placas de veículos e consultar boletins de ocorrência, conforme a reportagem. Um especialista ouvido pelo UOL afirmou que uma brecha estaria presente em interfaces que recebem registros de reconhecimento de placas e rostos, o que permitiria inserir dados indevidamente.
O que diz a Prefeitura?
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) falou do assunto durante o lançamento da sede da TMC (Transamerica Media Company), empresa de mídia. “O sistema é absolutamente seguro. A gente não tem nenhuma ocorrência de utilização indevida do sistema”, disse.

A Prefeitura também afirma que o repositório não trazia menção a senhas de acesso. O UOL, porém, relata que parte das credenciais seguia um padrão baseado nos dados cadastrais dos agentes e que não havia verificação em duas etapas. Segundo a reportagem, esse recurso só foi implantado depois dos questionamentos do jornal.
Quem opera o sistema?
O Smart Sampa é um projeto municipal, mas a gestão e a manutenção tecnológica ficam com o consórcio Smart City. Segundo o Estadão, a Prefeitura não tem acesso ao código-fonte, aos modelos de inteligência artificial nem às bases usadas para treiná-los. Esses componentes estão sob controle da SentinelX.
A SentinelX não existia quando a Prefeitura fez a licitação, em 2023. A empresa foi criada um mês após a assinatura do contrato e entrou no consórcio em dezembro de 2025, no lugar da Camerite. Os outros integrantes são CLD, Flama Serviços e PK9.
A administração municipal diz que fiscaliza o cumprimento dos requisitos técnicos da rede, mas não faz auditorias independentes dos modelos de IA.
Qual a ligação com a campanha presidencial?
O Smart Sampa foi lançado em 2024 e usa inteligência artificial para comparar imagens das câmeras com bases de pessoas procuradas pela Justiça e desaparecidas, segundo o Poder360.
O sistema entrou no debate da campanha. Em 13 de outubro, no anúncio de apoio de 17 diretórios estaduais do MDB ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, Nunes afirmou que o candidato pretende criar um sistema parecido em âmbito nacional, o Smart Brasil, com 2 milhões de câmeras. A apuração interna do vazamento segue na Corregedoria da GCM.



