O carcereiro Jaércio da Cunha Braga, afastado da Cadeia Pública de Mogi das Cruzes (Grande São Paulo), disse aos promotores do Gaeco que os R$ 147 mil e US$ 10 mil achados em sua casa, cerca de R$ 200 mil ao todo, são “economia de uma vida inteira”. Ele nega ter dado mordomias ao ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que estava preso na unidade.
As informações são do Estadão, publicadas pelo UOL. O Gaeco é o braço do Ministério Público que enfrenta o crime organizado.
De onde veio o dinheiro, segundo o carcereiro
Além da poupança de uma vida, Braga afirmou que parte da quantia vem da venda de uma casa de sua sogra. Outra parte, disse, pertence ao filho dele, funcionário de banco.
O carcereiro tem 37 anos de carreira e salário de R$ 9.831,94 por mês. Os promotores também encontraram com ele um maço de notas que somava R$ 4 mil. Braga disse que o dinheiro é dele, de “uso corriqueiro e normal”, porque não mantém dinheiro em banco.
Ele foi ouvido no sábado (17), um dia depois da blitz feita por promotores do Gaeco e delegados da Corregedoria da Polícia Civil. O Estadão informou que buscava contato com a defesa dele.
O que a Promotoria investiga
O juiz Domicio Whately Pacheco e Silva, da Vara Regional das Garantias de Guarulhos, autorizou três mandados de busca e apreensão: na casa do carcereiro, no 1º Distrito Policial e na cadeia. A ação teve apoio da Polícia Militar e da Polícia Penal, com cães farejadores.
Segundo a Promotoria, havia um “fluxo incessante” de visitantes, muitos sem vínculo familiar com Leite, além de outras regalias incompatíveis com a prisão. Uma câmera foi instalada em frente à cadeia cerca de duas semanas antes. Um relatório preliminar indica visitas de deputados, prefeitos aliados e amigos fora dos dias e horários permitidos, inclusive à noite e aos fins de semana.
O Ministério Público suspeita que Braga facilitava essa rotina. Policiais disfarçados fizeram diligências de campo em 8 e 9 de outubro. A Promotoria abriu um Procedimento Investigatório Criminal, e a Corregedoria abriu inquérito e uma apuração preliminar que deve resultar em processo administrativo disciplinar. Segundo os investigadores, os fatos podem configurar corrupção passiva, corrupção ativa e prevaricação.
O Estadão apurou que os primeiros depoimentos indicam contradições e falta de controle de acesso e de verificação de visitas. Um investigador definiu a unidade como “cadeia mal gerenciada”.
Quem é Milton Leite e onde ele está
Ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Leite foi preso em 18 de setembro na Operação Vectura Corrupta, que apura suposto elo dele com um esquema do PCC no transporte público da capital. Ele nega ligação com a facção, diz que nunca financiou nem apoiou o PCC e afirma que vai provar sua inocência.
A prisão é temporária, de 30 dias, e foi prorrogada. Na terça-feira (20), Leite foi levado para o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos.
O celular de Braga foi apreendido. A Promotoria espera que as mensagens extraídas do aparelho levem a outros policiais supostamente envolvidos e aos políticos que visitaram a cadeia em horários incompatíveis.
Correção (23/10, 13h40): uma versão anterior dizia que Milton Leite está preso na cadeia de Mogi das Cruzes; ele foi levado na terça-feira (20) para o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos.



