O El Niño em curso no Oceano Pacífico caminha para ser o mais intenso desde que há medições comparáveis, em 1950. Em boletim de 10 de setembro, o Centro de Previsão Climática da NOAA, a agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, estimou em 75% a chance de o aquecimento passar de 2,5 °C acima da média no trimestre de outubro a dezembro, patamar que nenhum episódio anterior alcançou.
No Brasil, o efeito aparece de forma desigual. A previsão conjunta do Inmet, do Inpe e da Funceme para a primavera indica chuva acima do normal no Sul, chuva abaixo da média no Norte e em boa parte do Nordeste e temperaturas acima da média em quase todo o território.
O que é o El Niño e por que chamam de “super”
O El Niño é o aquecimento anormal das águas da faixa equatorial do Pacífico. Ele altera a circulação dos ventos e, com isso, o regime de chuvas em vários continentes.
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“Super El Niño” não é uma classificação oficial, e sim o apelido usado para episódios muito fortes. A NOAA fala em mais de 90% de chance de um evento muito forte entre o fim deste ano e o início de 2027 e em um possível evento histórico.
Os dados de agosto mostram o tamanho do fenômeno. O índice Niño-3.4, principal referência para medi-lo, chegou a 1,8 °C acima da média. No leste do Pacífico equatorial, a anomalia passou de 3 °C, e abaixo da superfície há trechos do oceano mais de 10 °C acima do normal, segundo a agência americana.
A NOAA declarou o El Niño em 11 de junho. O Painel El Niño 2026-2027, boletim mensal de órgãos federais brasileiros, afirma que as condições devem durar pelo menos até o começo de 2027.
Como fica a chuva em cada região até dezembro
- Sul: chuva acima da média nos três estados. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o acumulado do trimestre pode superar a média em até 200 mm. O calor fica acima do normal em grande parte da região, com até 1 °C a mais no leste do Paraná; no Rio Grande do Sul, a temperatura tende a ficar perto da média.
- Sudeste: pode chover até 100 mm acima da média em São Paulo, no Rio de Janeiro e no centro-sul de Minas Gerais. No Espírito Santo, a previsão é de déficit de até 50 mm. As temperaturas ficam acima do normal, com desvio de até 1 °C no centro de Minas e no nordeste paulista.
- Centro-Oeste: pouca chuva no centro-norte de Mato Grosso e no norte de Goiás; excesso em Mato Grosso do Sul e no sul de Goiás. No norte de Mato Grosso, os termômetros podem marcar até 2 °C acima da média.
- Norte: primavera mais seca e mais quente. Em Roraima, no norte e nordeste do Amazonas e no oeste e centro-sul do Pará, a chuva pode ficar até 200 mm abaixo do normal.
- Nordeste: predomínio de chuva abaixo da média e calor que pode chegar a 2 °C acima do normal em alguns estados. A exceção é o leste, entre o Rio Grande do Norte e Alagoas, onde a chuva pode vir um pouco acima da média.
São tendências para o trimestre, e não a previsão de um dia específico. O próprio boletim federal ressalta que o impacto em cada cidade depende de como o tempo vai evoluir semana a semana.
Quais são os riscos para o Sul
A previsão hidrológica do Painel El Niño prevê rios mais cheios que o normal e chance maior de enchentes em todos os estados do Sul, em parte do Sudeste e no alto rio Paraguai. Segundo o documento, esse risco tende a diminuir até dezembro.
A nota técnica do Inmet e do Inpe também cita a chance de complexos convectivos de mesoescala, sistemas de tempestade que trazem chuva forte, rajadas de vento, raios e às vezes granizo.

Os reservatórios da região já estão cheios. Em 23 de setembro, os de regularização do sistema elétrico no Sul tinham 81,4% do volume útil, de acordo com dados da ANA reunidos no Painel.
E no Norte e no Nordeste?
O quadro é o oposto. Os rios devem seguir com vazão abaixo da média até dezembro, e os pontos mais sensíveis são os rios Branco e Negro, no Norte, e do São Francisco e do Parnaíba, no Nordeste. No norte da Amazônia, o início da estação chuvosa, que costuma chegar em dezembro, pode atrasar.
Para o fogo, o Cemaden projeta 395 cidades na faixa mais grave de alerta e outras 533 na faixa seguinte até dezembro, a maior parte no centro-norte do país.
O que muda para a lavoura e a água das cidades
O fenômeno pega o campo no meio da semeadura da safra 2026/27. No centro-norte, calor e pouca chuva podem provocar falhas na germinação e exigir replantio da soja semeada mais cedo, além de prejudicar a florada do café e o café conilon, segundo o Painel.
No Sul, a umidade favorece o milho de primeira safra. O excesso de água, porém, pode favorecer fungos no trigo, como a giberela, empurrar a colheita para mais tarde e dificultar o plantio da soja e do arroz irrigado.
Na Grande São Paulo, o Sistema Cantareira, principal manancial da região, tinha 41,3% do volume útil em 25 de setembro e opera em outubro na faixa de atenção. Os boletins oficiais não trazem estimativas de efeito sobre preços de alimentos ou da conta de luz.
Como se preparar
As orientações da Defesa Civil Nacional para quem mora em áreas de risco são:
- cadastrar-se para receber os alertas da defesa civil da sua cidade ou atualizar o cadastro;
- acompanhar previsões e avisos oficiais, como os publicados pelo Inmet em avisos.inmet.gov.br;
- conhecer os riscos do seu bairro e o plano de contingência local, com os pontos seguros e as rotas de fuga.
Quando sai a próxima atualização
A NOAA divulga o próximo boletim sobre o El Niño na quinta-feira, 8 de outubro. No Brasil, o Painel El Niño 2026-2027 é mensal; a edição de setembro foi a quarta.



