O Tribunal de Contas da União (TCU) fixou nesta quarta-feira (21) um prazo para o governo federal resolver o que fazer com Angra 3, a terceira usina nuclear de Angra dos Reis (RJ), com obras paralisadas desde 2015. Somadas, as duas etapas definidas pelo tribunal chegam a 240 dias.
A decisão foi unânime no plenário e seguiu o voto do relator, ministro Benjamin Zymler.
O que o TCU determinou
- Primeira etapa (120 dias): o Ministério de Minas e Energia precisa atualizar, se for o caso, e entregar os estudos técnicos que vão embasar a escolha, com cenários de conclusão e de abandono da obra.
- Segunda etapa (mais 120 dias): com o material em mãos, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) terá o mesmo prazo para decidir entre retomar a construção e o chamado abandono programado.
Segundo a Sputnik Brasil, BNDES, Aneel, Eletronuclear, EPE, ENBPar, CNEN e ANSN colaboram na preparação dos documentos.
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Quanto custa terminar e quanto custa desistir
Pelo estudo atualizado do BNDES citado pela Gazeta do Povo, concluir a usina exigiria mais R$ 23,9 bilhões. Até aqui, de acordo com o jornal, já foram investidos cerca de R$ 12 bilhões.
Desistir também sai caro. Estudos do governo apontam perda de aproximadamente R$ 22 bilhões se a usina não for terminada, segundo a reportagem da Sputnik. Na proposta de Orçamento de 2027 há R$ 1,1 bilhão reservado para o projeto.
Enquanto ninguém decide, a conta corre: o TCU estima em cerca de R$ 1 bilhão por ano o gasto para manter a obra parada, somando despesas operacionais e financeiras, informou a Gazeta do Povo.
Os números sobre o estágio da construção variam. A Gazeta fala em cerca de 66% concluídos; a Sputnik, em 60%. Em fevereiro de 2025, o próprio TCU citava 67%.
Quem paga a conta da indefinição
A área técnica do tribunal calcula que a demora custou cerca de R$ 2,5 bilhões à Eletronuclear, estatal responsável pelas usinas, entre 2024 e meados de 2026. A empresa fechou 2025 com prejuízo líquido de R$ 142 milhões e dívida líquida ajustada acima de R$ 7,25 bilhões.

O efeito se espalha. A Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que fornece o combustível de Angra 1 e Angra 2 e depende da Eletronuclear para mais de 99% da receita, teve prejuízo de R$ 156 milhões em 2025, em parte por atrasos nos pagamentos. A ENBPar, holding que controla as duas, viu o lucro cair de R$ 414 milhões em 2023 para R$ 186 milhões em 2025.
As dívidas da Eletronuclear com o BNDES estão suspensas até o fim de 2027, e a conversa com a Caixa continua. Para o relator, o fôlego é temporário. “Mantido esse cenário, há um risco ponderável de insolvência da estatal”, escreveu Zymler no voto, segundo a Sputnik.
E a conta de luz?
Se a obra for retomada, a energia de Angra 3 terá um preço de venda aprovado pelo governo, e é nesse ponto que o consumidor entra na história. No Acórdão 666/2024, o TCU recomendou ao CNPE que, em caso de autorização, impeça que novos atrasos e ineficiências sejam embutidos nesse preço, para que o custo fique com a concessionária e não com quem paga a fatura.
O tribunal também cobrou que o valor seja justificado com estudos de modicidade tarifária e de impacto ao consumidor, e que o custo de um eventual abandono entre na comparação. Hoje a fonte nuclear responde por cerca de 3% da energia do país.
Por que a decisão se arrasta
A construção começou nos anos 1980 e foi interrompida várias vezes. Em fevereiro de 2025, o Ministério de Minas e Energia votou no CNPE pela conclusão, mas a Casa Civil pediu vista, alegando que o tema seguia em análise no governo. Em outubro de 2025, o conselho mandou refazer a modelagem do projeto por causa do acordo entre a União e a Axia Energia, antiga Eletrobras, dona de 35,9% da Eletronuclear. A ENBPar tem os outros 64,1%.
Em agosto deste ano, o TCU já havia aberto um procedimento para acompanhar o caso e criticado o custo da indefinição.
Próximos passos
O Ministério de Minas e Energia tem agora 120 dias para entregar os estudos. Depois disso, o CNPE terá mais 120 para votar. Se os dois prazos forem usados por inteiro, a palavra final sobre Angra 3 só sai em 2027.



