Uma equipe da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) encontrou o mexilhão-dourado no Rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais. O ponto fica a cerca de mil quilômetros do registro anterior mais próximo na bacia, feito entre 2016 e 2017 na região da barragem de Sobradinho, entre a Bahia e Pernambuco.
O resultado foi publicado na revista científica CheckList e tem como base trabalho de campo feito entre julho de 2024 e abril de 2025. Os pesquisadores coletaram 113 exemplares do molusco em São Francisco e São Romão.
Onde o mexilhão apareceu
Foram cinco expedições e 16 estações de coleta em quatro municípios às margens do rio: São Francisco, São Romão, Ibiaí e Pirapora. A espécie esteve em todas as estações de São Francisco e em uma de São Romão.
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Em Ibiaí, em Pirapora e no reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Marias, não houve registro. O estudo foi conduzido pelos professores Magno Augusto Zazá Borges e Maurício Lopes de Faria, da Unimontes, e a pesquisa começou dentro do Projeto Opará, que monitora a qualidade da água entre Pirapora e Januária com apoio de um barco-laboratório.
Como o molusco chegou até lá?
A causa não está comprovada. Uma das hipóteses investigadas é que pequenas embarcações tenham levado o molusco rio acima, o que permitiria à espécie vencer grandes distâncias. Segundo os pesquisadores, isso segue como hipótese.
Faria afirmou que a ausência da espécie em Ibiaí, Pirapora e Três Marias contraria a ideia de que ela tenha descido naturalmente a partir de Furnas, seguindo o curso do rio.
O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) é originário da Ásia. Segundo uma publicação científica citada pela CNN Brasil, ele chegou à América do Sul em 1991, na água de lastro de cargueiros, e entrou no Brasil no fim dos anos 1990 pela hidrovia Paraná-Paraguai. De acordo com o mesmo trabalho, a espécie se espalhou por rios e reservatórios do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e de partes do Nordeste, e não há casos documentados na Região Norte do país.
Qual o risco para usinas e para quem usa a água?
O molusco se fixa em superfícies duras e forma colônias densas. Essas colônias podem entupir tubulações de captação, sistemas de irrigação e estruturas de usinas, além de elevar custos de manutenção e danificar equipamentos de pescadores.
A publicação citada pela CNN Brasil estima em US$ 9,97 milhões por ano o gasto do setor elétrico brasileiro com prevenção e controle da espécie. A mesma fonte considera improvável erradicá-la com os métodos atuais.
No ambiente natural, o mexilhão disputa alimento e espaço com espécies nativas. Segundo os pesquisadores da Unimontes, a capacidade de reprodução e de dispersão dificulta o controle.
O que pode ser feito
Os pesquisadores sugerem três frentes:
- ampliar o monitoramento de rios e reservatórios;
- inspecionar e limpar embarcações que circulam entre bacias diferentes;
- orientar pescadores e operadores de turismo náutico.
A publicação citada pela CNN Brasil acrescenta a desinfecção de barcos e equipamentos de pesca com água sanitária antes de entrar em novos corpos d’água. Para piscicultores, indica exigir laudos que comprovem a ausência de larvas em cargas de alevinos.
Para a equipe da Unimontes, a ausência do molusco em Três Marias abre espaço para agir antes que ele chegue a outras áreas da bacia. Os exemplares estão no Centro de Coleções Biológicas do Norte de Minas Gerais, ligado à universidade, e os estudos seguem em uma iniciativa de monitoramento ambiental apoiada pela Fapemig, a fundação de amparo à pesquisa de Minas Gerais.



