O pedreiro Edimar Rocha Martins, de 49 anos, viajou mais de 2 mil quilômetros de ônibus, de Imperatriz (MA) a Belo Horizonte, para conhecer a mulher com quem conversava pelas redes sociais. Chegou no domingo (11) e descobriu que ela não existia: a “Jéssica Fazendeira” era uma personagem gerada por inteligência artificial, com mais de 300 mil seguidores no TikTok.
O caso ganhou repercussão nacional nesta semana e levou o criador do perfil a falar pela primeira vez. Segundo ele, a personagem foi feita para atrair público e vender produtos na internet.
Quem era a Jéssica Fazendeira
O perfil apresentava a personagem como Jéssica Oliveira, conhecida como Jéssica Fazendeira. Nos vídeos, ela se dizia divorciada, dona de uma fazenda no interior de Minas Gerais e à procura de um companheiro para morar com ela, de acordo com o jornal O Liberal. A aparência e a voz eram realistas.
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A Gazeta de S. Paulo relata que as respostas às interações nas publicações eram automáticas. Ou seja, a personagem não falava só com Edimar.
Um detalhe ajudou a afastar a desconfiança: a “Jéssica” nunca pediu dinheiro. “Sempre oferecia para pagar minha passagem, me buscar em qualquer lugar”, contou o pedreiro, segundo O Liberal.
O que aconteceu em Belo Horizonte
Edimar saiu de Imperatriz na sexta-feira (9) sem um endereço confirmado. Em Belo Horizonte, mostrou fotos da suposta namorada a pessoas na rua e procurou uma rádio, sem que ninguém a reconhecesse. Foi aí que percebeu o engano. “Então, eu me senti enganado”, disse.
Em entrevista à Rádio Itatiaia, citada pelo Midiamax, ele contou que ficou muito sozinho depois da morte da mãe e via na “Jéssica” uma chance de mudar de vida.
Sem dinheiro para voltar, o pedreiro foi atendido pelo Serviço de Atendimento e Acolhimento ao Migrante da Prefeitura de Belo Horizonte. Recebeu banho, alimentação, orientações sobre golpes virtuais e uma passagem de ônibus para a cidade natal, no Tocantins, onde embarcou na terça-feira (13). A prefeitura também divulgou um alerta sobre conteúdos criados ou manipulados por IA.
Segundo a Gazeta de S. Paulo, é o terceiro caso parecido em menos de seis meses de homens que viajaram à capital mineira atrás de supostas fazendeiras vistas em vídeos.
O que diz o criador do perfil
Ouvido pelo g1, em relato reproduzido pelo NC News, o responsável pela personagem preferiu não se identificar. Ele disse que criou a “Jéssica” em 2025 como “gancho” para atrair seguidores e, depois, divulgar produtos como afiliado de plataformas de comércio eletrônico, como TikTok Shop e Mercado Livre.
O criador negou ter conversado com Edimar e afirmou não saber se outras pessoas usaram os vídeos dele em outras redes para falar com o pedreiro. Disse ainda estar com medo depois da repercussão. O perfil saiu do ar na quarta-feira (14).
Como reconhecer um perfil criado por inteligência artificial
A cartilha “Golpes: Não se Deixe Enganar”, do CERT.br, o centro de resposta a incidentes de segurança mantido pelo NIC.br, lembra que golpistas já usam IA para ficar mais convincentes. Do material, dá para tirar uma lista prática:
- Desconfie de vídeos e áudios, mesmo realistas. A cartilha alerta que rosto e voz podem ser imitados com IA e recomenda procurar sinais de alteração.
- Repare no apelo emocional. Promessa boa demais, pressa, pedido de segredo e apelo afetivo estão entre os sinais de engenharia social, técnica que explora sentimentos como carência e confiança.
- Teste a pessoa. A cartilha sugere fazer perguntas que só a pessoa verdadeira saberia responder e confirmar a história por um contato já conhecido. Se ela sempre foge de qualquer verificação, desconfie.
- Pesquise o nome e as fotos. O CERT.br orienta conferir a informação em mais de uma fonte e procurar relatos de golpes parecidos.
- Converse com alguém de confiança. Contar a história a um amigo ou parente antes de tomar uma decisão grande, como uma viagem ou uma mudança, ajuda a enxergar o que passa despercebido.
- Cuidado com o que você expõe. Quanto mais informação pessoal fica pública, mais fácil é para um golpista montar uma conversa sob medida.
Não houve pedido de dinheiro. Ainda assim foi golpe?
No caso de Edimar, nenhuma das reportagens relata cobrança ou transferência de valores, e não há registro de investigação policial. O prejuízo foi de outro tipo: a viagem, a mudança de planos e o desgaste emocional. A orientação da cartilha vale do mesmo jeito: quando a história envolve vantagem, promessa ou decisão importante, a regra é tratar como suspeita até que se prove o contrário.
Quem identificar um perfil falso pode denunciá-lo pela própria rede social. Se houver perda de dinheiro ou uso indevido de dados, o caminho é registrar boletim de ocorrência, que em vários estados pode ser feito pela delegacia virtual.



