O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, afirma em áudio e em documentos divulgados pela revista Veja na noite de quinta-feira (8) que pagou cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo para ajudar a custear um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no exterior. Em troca, segundo o relato, o banco teria acesso aos fundos de pensão de servidores federais.
O relato fez parte de um anexo entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR) em junho, durante a segunda tentativa de delação de Vorcaro, que acabou descartada. De acordo com a Veja, a PGR não seguiu com o caso por considerar que não havia provas, já que os pagamentos teriam sido feitos em espécie.
O que Vorcaro diz no relato?
Segundo o ex-banqueiro, a aproximação com o PT foi montada pelo então sócio e CEO do Master, Augusto Lima, que teria contado com o senador Jaques Wagner, à época líder do governo no Senado, para chegar a um primeiro encontro com o ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto.
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Nessa conversa, ainda conforme Vorcaro, foram pedidos dois adiantamentos para garantir votos a favor do credenciamento do Master nos fundos de pensão:
- cerca de R$ 30 milhões por fora para despesas do documentário Lula, do cineasta americano Oliver Stone;
- valores pagos ao Instituto Lula, dirigido por Paulo Okamotto, sem quantia revelada.
O banqueiro afirma ainda que Vaccari teria exigido 10% de tudo o que o Master captasse nos fundos de previdência de funcionários da Petrobras, dos Correios, da Caixa e do Banco do Brasil. Pelas contas do relato, o grupo político ficaria com R$ 1 bilhão e o banco com R$ 9 bilhões, caso o plano desse certo.
Na gravação, o interlocutor compara o caso ao dinheiro que Vorcaro deu ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, que a Veja estima em mais de R$ 60 milhões. O banqueiro diz que o valor destinado ao filme de Lula pode ter sido maior e faz a distinção: “Só que o do Lula foi por fora, foi errado”. Sobre o filme ligado ao senador Flávio Bolsonaro (PL), afirma que se tratou de patrocínio normal.
Por que a PGR não levou o caso adiante?
Segundo a revista, a Procuradoria entendeu que faltavam provas de pagamentos feitos em espécie. A defesa de Vorcaro rebateu na época dizendo ter mensagens de WhatsApp, registros de quem retirou o dinheiro e a relação de locais e rotas usados por operadores nas entregas. O relato não avançou.

O que mostram os áudios sobre Guido Mantega?
Em outra frente, o jornal O Estado de S. Paulo divulgou mensagens de áudio do celular de Vorcaro em que ele e o então advogado Walfrido Warde insistem, em 2025, para que o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega se encontrasse com Lula para defender o Master diante dos questionamentos do Banco Central. Mantega havia sido contratado pelo banco como consultor por R$ 14 milhões.
Em 23 de julho de 2025, Warde sugeriu ao banqueiro mandar o avião dele buscar Mantega, que estava em Londres, para uma conversa com o presidente. Dias antes, em 17 de julho, depois de receber do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, informações sobre uma reunião do presidente do BC, Gabriel Galípolo, que tratava do Master, Vorcaro concluiu que o negócio não sairia e escreveu ao advogado: “Avise presidente amanhã e vamos pra guerra”.
Numa das conversas, Vorcaro também cita apenas o nome “Alexandre”, sem deixar claro se falava do ministro do STF Alexandre de Moraes. Em setembro de 2025, o BC barrou a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB); em novembro, decretou a liquidação do banco.
O que dizem os citados?
- Lula: segundo a reportagem da Veja, o presidente negou ter pedido ou recebido qualquer vantagem financeira de Vorcaro e disse não ter autorizado ninguém a receber dinheiro em seu nome.
- Produtores do documentário Lula: em maio, quando o suposto financiamento do filme por Vorcaro veio a público pela primeira vez, produtores e diretores afirmaram em nota ao Metrópoles que a obra não recebeu dinheiro do ex-banqueiro, do Master nem de empresas ou fundos ligados a eles, e disseram que poderiam ir à Justiça contra o que consideram informações falsas.
- Planalto: afirmou ao Estadão que Lula se reuniu uma única vez com Vorcaro, em dezembro de 2024, e negou favorecimento ao banco.
- Hugo Motta: disse, por meio da assessoria, que o contato com empresários faz parte da atividade parlamentar e que confia nos órgãos de investigação.
- Alexandre de Moraes: procurado pelo Estadão por meio da assessoria do STF, não se manifestou.
- Grupo Prerrogativas: o grupo de advogados afirmou à coluna Painel, da Folha de S.Paulo, ter recebido informações de que Vorcaro teria sido estimulado a falar sobre o filme em troca da promessa de sair da prisão no início de 2027 com tornozeleira e da soltura imediata do pai, Henrique Vorcaro. O grupo diz que pedirá à Polícia Federal a abertura de inquérito.
- Demais citados: Jaques Wagner, João Vaccari Neto, Paulo Okamotto e Augusto Lima não haviam comentado o relato até a publicação da reportagem.
Onde está Vorcaro e o que acontece agora?
Vorcaro está preso desde março e fica no presídio da Papudinha, no Distrito Federal. Ele é alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura fraudes no Master e a tentativa de venda ao BRB.
Na quinta (8), a defesa pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que libere para o ministro André Mendonça, relator das investigações, o julgamento de um pedido de soltura. Os advogados alegam que ele completou mais de oito meses na prisão sem ter sido indiciado e sem responder a ação penal. Desde setembro, os processos do caso estão temporariamente com a presidência do Supremo, e a decisão sobre o pedido cabe a Fachin.
Correção (09/10, 07:05): a matéria foi atualizada para incluir a negativa de Lula, a posição dos produtores do documentário e a informação de que os demais citados não haviam se manifestado.



