Quarta-feira, 21 de outubro de 2026
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AGU usa Lei Antifacção pela 1ª vez e pede confisco de R$ 190 milhões ligados ao PCC e ao CV

Quatro ações civis na Justiça Federal do PR, de SP e do RS miram 87 réus de esquemas de contrabando e um grupo de tráfico de cocaína para a Europa; perda dos bens não depende de condenação criminal

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Resumo rápido

  • A AGU ajuizou nesta terça (20) as quatro primeiras ações de perdimento de bens com base na Lei Antifacção, somando R$ 190,3 milhões.
  • Três ações, de R$ 82 milhões, envolvem 87 réus ligados ao PCC; a quarta, de R$ 108,2 milhões, trata de tráfico de cocaína para a Europa.
  • O confisco civil dispensa condenação criminal prévia, mas depende de decisão da Justiça Federal.

A Advocacia-Geral da União (AGU) entrou na Justiça Federal, nesta terça-feira (20), com as quatro primeiras ações baseadas na Lei Antifacção para tentar tomar R$ 190,3 milhões em bens de suspeitos de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e com o Comando Vermelho (CV). É a estreia do mecanismo que permite pedir a perda de patrimônio de origem ilícita sem esperar o fim do processo criminal.

As ações foram protocoladas pela Procuradoria-Geral da União (PGU), braço da AGU, em varas federais do Paraná, de São Paulo e do Rio Grande do Sul. O confisco ainda depende de decisão judicial.

O que a AGU está pedindo?

Os pedidos se dividem em dois blocos, segundo informações divulgadas pelo órgão e reunidas por Metrópoles, Band e Gazeta do Povo:

Leia também: Exportações de café pelo ES sobem 58% e passam de 5 milhões de sacas · Ri Happy pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas

  • Três ações, R$ 82 milhões e 87 réus: envolvem suspeitos de contrabando de cigarros paraguaios e de agrotóxicos proibidos ligados ao PCC. Os casos vêm das operações Marola, Delivery e Contaminatus.
  • Uma ação, R$ 108,2 milhões: nasce da Operação Hinterland, que apura tráfico internacional de cocaína para a Europa e lavagem de dinheiro. Há conexões entre investigados e um integrante do Comando Vermelho, mas, de acordo com a AGU, não ficou comprovado vínculo formal do grupo com a facção.

Somadas, as investigações identificaram movimentações financeiras acima de R$ 230 milhões. Entre os bens rastreados estão imóveis, aeronaves, carros de luxo, empresas e pedras preciosas. A AGU não detalhou quais bens pertencem a cada réu.

O que é a Lei Antifacção?

É a Lei nº 15.358/2026, sancionada em 24 de março deste ano a partir do PL 5.582/2025, que teve como relator na Câmara o deputado Guilherme Derrite (PP-SP). O texto endureceu o combate ao crime organizado em várias frentes:

  • define facção como grupo de três ou mais pessoas que usa violência ou coação para controlar território, intimidar a população ou atacar serviços essenciais;
  • cria o crime de domínio social estruturado, com pena de 20 a 40 anos de prisão, e o de favorecimento desse domínio, de 12 a 20 anos, ambos hediondos;
  • em alguns casos, exige o cumprimento de até 85% da pena em regime fechado antes da progressão;
  • proíbe o auxílio-reclusão a dependentes de condenados por esses crimes;
  • cria um banco nacional de dados sobre organizações criminosas, integrado às bases estaduais.

Dois trechos foram vetados: o que dava a não integrantes de facção a mesma pena dos membros e o que mandava os bens apreendidos para fundos estaduais e do Distrito Federal, segundo o Poder360.

Fachada de vidro do prédio da AGU vista de baixo, entre árvores
Fachada do prédio da Advocacia-Geral da União, em Brasília (foto de arquivo, 03/11/2023) Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Como funciona o confisco sem condenação?

A lei criou uma ação civil autônoma de perdimento de bens. Ela corre separada do processo penal: o Estado tenta provar na Justiça que o patrimônio tem origem ilícita, e o juiz pode decretar a perda mesmo que ninguém tenha sido condenado criminalmente. A norma também autoriza vender bens apreendidos antes do fim do processo, para evitar que percam valor parados em pátios e depósitos.

Os réus têm direito a defesa e podem contestar a origem do patrimônio. Até a decisão final, nenhum deles é considerado culpado pelos crimes investigados.

Quem pode ser atingido?

A estratégia da AGU mira menos os executores e mais quem financia e lucra com o crime: beneficiários econômicos, empresas de fachada, familiares e terceiros usados como laranjas para esconder patrimônio. Em nota, o órgão afirmou que a “descapitalização das organizações criminosas” pode dificultar o financiamento de novas operações.

O rastreamento foi feito com o Laboratório de Recuperação de Ativos (Labra) da AGU, com dados dos ministérios da Justiça e da Fazenda, da Controladoria-Geral da União (CGU) e de órgãos de inteligência financeira, segundo a Gazeta do Povo.

Por que o foco no dinheiro?

O contrabando de cigarros e o de agrotóxicos estão entre as fontes de renda do PCC fora do tráfico de drogas, principalmente na fronteira com o Paraguai. Pela lógica da nova lei, bloquear e retirar esse caixa por via civil reduz a capacidade de a facção se reorganizar mesmo quando seus integrantes ainda não foram julgados.

Próximos passos

Cabe agora às varas federais do Paraná, de São Paulo e do Rio Grande do Sul analisar os pedidos, inclusive as medidas para impedir que os bens sejam transferidos ou escondidos durante o processo.

Fontes consultadas

Metrópoles — AGU aciona Justiça para confiscar R$ 190 milhões ligados ao PCC e ao CV Band — Governo usa Lei Antifacção para confiscar R$ 190 mi em bens do PCC e do CV Gazeta do Povo — AGU usa Lei Antifacção pela 1ª vez para confiscar R$ 190 milhões ligados ao PCC e CV Poder360 — Lula sanciona PL Antifacção com vetos; entenda como ficou

Redação Trendou, a partir das fontes acima. Saiba como trabalhamos na Política editorial · Pedir correção

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