O Tesouro Nacional cancelou nesta segunda-feira (26) os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação marcados para esta semana e anunciou uma recompra extraordinária de até 15 milhões de títulos prefixados. As medidas saíram no primeiro dia de negócios depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com os juros futuros em forte alta, segundo o InfoMoney e a Exame.
Na mesma manhã, a plataforma do Tesouro Direto, usada por pessoas físicas, demorou a abrir. Às 10h10, as negociações ainda não tinham começado, de acordo com o InfoMoney, que atribuiu o atraso à alta volatilidade das taxas.
O que o Tesouro cancelou
- Terça-feira (27): leilão de NTN-B, o título corrigido pela inflação que no varejo se chama Tesouro IPCA+;
- Quinta-feira (29): leilão de LTN e NTN-F, os títulos prefixados;
- Mantido: a oferta de LFT (Tesouro Selic) de terça-feira, com as regras dos leilões comuns.
Em nota citada pelos dois veículos, o Tesouro disse que “continuará monitorando as condições de mercado” e que vai agir para manter o bom funcionamento do mercado de títulos públicos. A Exame informou que a suspensão é temporária.
Como funciona a recompra de títulos
Na recompra, o Tesouro faz o caminho inverso do leilão comum: em vez de vender papéis da dívida, compra de volta títulos que estão nas mãos do mercado. A operação desta segunda envolve NTN-F com vencimento em 2031, 2033 e 2037, com limite de 5 milhões de títulos para cada data, segundo o InfoMoney.
As propostas foram recebidas das 11h15 às 11h45, e só os dealers, instituições credenciadas para negociar com o Tesouro, puderam participar. O Banco Central divulga o resultado a partir das 12h, e a liquidação fica para terça (27).
Cada NTN-F vale R$ 1.000 no vencimento, o que dá um teto teórico de R$ 15 bilhões. O gasto real deve ser menor, porque esses títulos pagam cupom de 10% ao ano abaixo das taxas praticadas hoje, explicou o InfoMoney.
Não é a primeira vez no ano. Em março, sob pressão da guerra no Oriente Médio, o Tesouro também cancelou os leilões de uma semana e, no dia 17, recomprou R$ 9,05 bilhões em prefixados, segundo a CNN Brasil.
Por que os juros dispararam
Depois do primeiro turno, o mercado passou a apostar na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), e as taxas caíram. O Tesouro Prefixado 2032 abriu o dia 2 de outubro pagando 14,15% ao ano e fechou a sexta-feira (23) em 12,89%. No mesmo período, o Tesouro IPCA+ 2050 passou de IPCA + 7,06% para IPCA + 6,42%, de acordo com o InfoMoney.

A vitória de Lula por cerca de 4,4 milhões de votos desfez essa aposta. Os juros futuros subiram em todos os prazos, com alta de até 182 pontos-base, ou 1,82 ponto percentual, nos vencimentos mais longos, informou o site. O dólar chegou a R$ 5,60 e a B3 acionou o circuit breaker logo na abertura.
A Gazeta do Povo lista a dívida e o custo dos juros entre os principais riscos para o próximo mandato e cita gasto de R$ 1,3 trilhão com juros em 2025, cerca de 9% do PIB.
Para os próximos dias, o JPMorgan vê as taxas dos títulos longos chegando a até 15,5% ao ano na hipótese mais pessimista, e a gestora Corano fala em 14% a 15%, segundo o InfoMoney.
Tenho Tesouro Direto. Vou perder dinheiro?
O cancelamento dos leilões não impede comprar nem vender títulos pelo Tesouro Direto, segundo a Exame e o InfoMoney. O que muda é o preço. Quando a taxa de mercado sobe, o valor dos prefixados e dos IPCA+ cai; é a chamada marcação a mercado.
Quem fica com o título até o vencimento recebe a rentabilidade combinada na compra, explicou a Exame. O prejuízo aparece para quem precisa vender antes. O InfoMoney calculou quanto o preço cai a cada alta de 1 ponto percentual na taxa, tomando como base o fechamento de sexta:
- Tesouro IPCA+ 2050: cerca de 20%;
- Tesouro Prefixado 2032: cerca de 4,4%;
- Tesouro Prefixado 2029: cerca de 2%.
Quanto mais longo o título, maior o tombo no preço com a mesma alta de juros. Já o Tesouro Selic acompanha a taxa básica, hoje em 13,75% ao ano, segundo o InfoMoney.
O que acontece agora
O Banco Central publica ainda nesta segunda o resultado da recompra, com quantos títulos o Tesouro conseguiu comprar. Na terça (27), o Tesouro faz o leilão de LFT, que foi mantido. A próxima reunião do Copom, que decide a Selic, está marcada para 4 de novembro.



