Os juros de longo prazo caíram forte nesta segunda-feira (5), primeiro pregão após o primeiro turno das eleições. A taxa dos títulos que vencem em dez anos recuou de 14% para 13% ao ano, e o dólar foi a R$ 5, segundo a Folha de S.Paulo e o Valor Econômico.
A taxa básica, a Selic, não mudou e segue em 13,75% ao ano. O Banco Central a reduziu a esse nível em setembro, no quinto corte consecutivo. A próxima reunião do Copom, o comitê que define a Selic, está marcada para novembro.
O que aconteceu na eleição
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) obteve cerca de 47,1% dos votos válidos, contra cerca de 45,1% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de acordo com a Forbes Brasil. O segundo turno será em 25 de outubro.
Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, afirmou à Forbes que a reação do mercado refletiu a surpresa com o desempenho nas urnas, já que as pesquisas apontavam disputa equilibrada. Segundo ela, durante a campanha a curva de juros chegou a precificar uma Selic de 14,5%.
Por que os juros de mercado caíram
Em coluna na Folha, o economista Bernardo Guimarães, professor da FGV EESP, diz que as mudanças nos preços refletem a expectativa de que um governo Flávio Bolsonaro reduziria o déficit fiscal, abrindo espaço para juros menores.
Guimarães ressalva que a campanha fala em cortes de gastos de 1,5% do PIB, mas as medidas discutidas ou anunciadas “não chegam nem perto disso”, nas palavras dele. Para o economista, os preços refletem “não uma certeza de grande ajuste de contas, mas uma chance maior de que os juros cheguem a níveis civilizados nos próximos anos”.
Ele afirma que um ajuste fiscal substancial exigiria desvincular benefícios do salário mínimo, mexer de novo na Previdência e reduzir exceções à regra fiscal. Segundo Guimarães, nada disso está em discussão nem estará até a eleição. O Valor também registra que as propostas de Flávio para as contas públicas não são conhecidas.
O que esperar para novembro
Rafaela Vitoria espera corte de 0,25 ponto percentual na reunião de novembro e não vê a mudança de humor do mercado alterando a decisão do Banco Central. Para ela, o câmbio melhora, e as expectativas de inflação podem melhorar “mais para dezembro e para o próximo ano”.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, diz que o mercado precifica queda de 0,30 ponto na próxima reunião e de 0,25 ponto na seguinte.
- Boletim Focus (5 de outubro): Selic de 13,50% ao fim de 2026 e de 12% ao fim de 2027. O boletim ainda não incorpora os ajustes pós-eleição, segundo a Forbes.
- IPCA em 12 meses: 4,22%, acima do centro da meta, de 3%.
- Projeção de inflação no Focus: 5,01% para 2026 e 4,30% para 2027.
O que depende do próximo governo
De acordo com a Forbes, uma sinalização mais firme de ajuste fiscal poderia reancorar as expectativas de inflação e abrir espaço para cortes maiores da Selic. Rafaela Vitoria afirma que a melhora das projeções pode ser determinante para acelerar a queda dos juros em 2027.
Guimarães compara os dois cenários. Sem Fernando Haddad na Fazenda e com Aloizio Mercadante “provavelmente” no BNDES, ele considera difícil esperar que um novo governo Lula seja fiscalmente mais responsável que o atual. Lembra que o governo Lula estimulou o crédito por BNDES, Peac, Desenrola e Crédito do Trabalhador, medidas que, na avaliação dele, levam a uma Selic maior. Para um governo Flávio, ele considera razoável esperar menos crédito direcionado.
O Valor lembra que Lula disse, nos últimos dias, ser preciso parar com a “babaquice de fazer superávit”, tema que o jornal descreve como o mais caro para os mercados. O jornal cita ainda estudos segundo os quais uma queda de 10% do dólar pode retirar 0,6 ponto percentual do IPCA nos próximos meses, o que abriria espaço para o Banco Central acelerar os cortes.
Os candidatos voltam às urnas no segundo turno, em 25 de outubro.



