A Polícia Federal prendeu nesta segunda-feira (19) Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, mãe do rapper Oruam, e o filho dela, Lucas Santos Nepomuceno, o Lucca. As prisões fazem parte da Operação Backbone, que mira o monopólio de internet imposto pelo Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão, na zona norte do Rio.
Márcia é mulher de Marcinho VP, apontado como um dos principais chefes da facção e preso há quase três décadas. Ele está custodiado no sistema penitenciário federal. Segundo o G1, um mandado de prisão também foi cumprido contra ele, que já estava encarcerado.
Como funciona a “internet do tráfico”?
De acordo com as investigações, traficantes armados cortam cabos e incendeiam caixas de distribuição de operadoras regulares e de concorrentes. Também impedem reparos feitos por técnicos. Sem alternativa, moradores e comerciantes acabam contratando o serviço da facção.
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Os provedores autorizados pelo grupo pagam uma taxa mensal para atuar nas comunidades. Registros contábeis do próprio CV, citados pela PF, indicam que, em um único mês, essa cobrança respondeu por mais de 40% de toda a arrecadação da facção no Complexo da Penha.
Para a PF, cada comunidade dominada vira uma base de clientes sem concorrência, o que alimenta a disputa armada por território.
Quem foi preso e o que determinou o STF
As ordens partiram do Supremo Tribunal Federal (STF). O G1 atribui os mandados de prisão ao ministro Alexandre de Moraes. Ao todo, são 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão, em Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé.
Até a última atualização das reportagens, 19 pessoas tinham sido presas, parte delas já cumprindo pena em presídios, segundo a Folha. Entre elas está o vereador do Rio Fabio Silva (Podemos), detido em Londrina (PR). A defesa dele disse à CNN Brasil que não teve acesso aos autos e só vai se manifestar depois de analisá-los.
O Supremo também determinou o bloqueio de bens e valores de até R$ 558 milhões de 40 pessoas físicas e 42 empresas. As firmas tiveram as atividades suspensas. São provedores de internet, produtoras de eventos, um escritório de contabilidade e empresas de fachada. Segundo o G1, a PF apreendeu joias e dinheiro na casa de um beneficiário de um dos provedores.
Como o dinheiro chegava à família?
A PF afirma que Marcinho VP “continua a controlar as atividades empresariais” nesses territórios, em conjunto com familiares e outras lideranças. Segundo a corporação, o lucro chegava à família por meio de empresas que arrecadavam o dinheiro, operadores financeiros e contas de passagem. Depois, o valor era disfarçado em produtoras de eventos, empresas de publicidade, imóveis de alto padrão comprados em espécie e criptoativos.
Oruam, a mãe e o irmão já tinham sido alvos de mandados de prisão em abril, numa fase da Operação Contenção, da Polícia Civil, suspeitos de lavar dinheiro para o CV. Na ocasião, não foram encontrados. Em maio, o Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) denunciou Marcinho VP, Márcia, Oruam e outras nove pessoas por organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Segundo a Folha de S.Paulo, Lucas teve a prisão preventiva decretada nesse processo, mas a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio concedeu habeas corpus em agosto. Ele responde ao processo em liberdade, com tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares. A denúncia o descreve como gestor financeiro de segundo escalão, encarregado de repassar ordens e administrar dinheiro ligado à lavagem. Ele nega.
Não se sabia, até a última atualização do G1, se Oruam é investigado neste inquérito. A defesa de Márcia e Lucas não havia sido localizada pelas reportagens até a publicação.
Quais crimes estão sendo apurados?
Os alvos podem responder por:
- domínio social estruturado;
- extorsão majorada;
- atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública;
- interrupção de serviço telemático;
- desenvolvimento clandestino de telecomunicações;
- lavagem de dinheiro.
Todos são apenas investigados e só serão considerados culpados após condenação definitiva.
E os moradores que usam esses provedores?
A operação faz parte da força-tarefa Missão Redentor II, coordenada pela PF contra facções no Rio, seguindo as diretrizes do STF na ADPF 635, a chamada ADPF das Favelas.
Segundo a PF, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) será oficiada para cassar as outorgas e interditar os serviços dos provedores. A corporação diz que haverá providências para que moradores das áreas atingidas não fiquem sem conexão.



