O deputado federal André Janones (Rede-MG), de 42 anos, voltou ao centro da disputa presidencial como administrador do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que passou de 4 milhões de seguidores e virou alvo de três decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em quatro dias. A seis dias do 2º turno, marcado para 25 de outubro, o canal está registrado pela campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e é tema de uma ação que apura suposto abuso de poder.
A trajetória dele mistura internet, greve de caminhoneiros, auxílio emergencial e processos na Câmara.
De onde vem André Janones
André Luis Gaspar Janones nasceu em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, em 5 de maio de 1984. Antes da política, trabalhou como cobrador de ônibus e como servidor do Tribunal de Justiça de Minas Gerais; depois se formou em direito e abriu um escritório de advocacia, segundo perfil publicado pelo Poder360.
A primeira eleição foi uma derrota: em 2016, disputou a prefeitura da cidade natal e não venceu.
Como ele ficou conhecido
O nome ganhou alcance nacional em 2018, quando Janones publicou vídeos em apoio à paralisação dos caminhoneiros. No mesmo ano, foi eleito deputado federal com 178.660 votos, o terceiro mais votado de Minas.
Na pandemia, em 2020, fez transmissões ao vivo em defesa do auxílio emergencial de R$ 600 e apresentou projeto para estender o pagamento até dezembro daquele ano.
Em 2022, lançou pré-candidatura à Presidência pelo Avante, mas desistiu e passou a apoiar Lula. Na época, disse ter recebido do petista a garantia de que o auxílio de R$ 600 seria mantido. Reeleito deputado com 238.967 votos, o segundo mais votado do estado, atuou na estratégia digital da campanha e integrou o grupo de comunicação da transição de governo. No ano seguinte, lançou o livro “Janonismo cultural”, sobre o uso das redes na política.
O acordo da “rachadinha” e a suspensão no Conselho de Ética
Em março de 2025, Janones fechou com a Procuradoria-Geral da República um acordo de não persecução penal no inquérito que investigava a devolução de salários de assessores, a chamada “rachadinha”. Pelo acordo, ele se comprometeu a pagar R$ 157,8 mil: R$ 131,5 mil de ressarcimento à Câmara e R$ 26,3 mil de prestação pecuniária. O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, homologou o acordo em 19 de março de 2025, segundo a Jovem Pan.
De acordo com a PGR, o deputado admitiu ter pedido a um assessor, em 2019, um cartão de crédito adicional, cujas faturas eram pagas pelo funcionário. A assessoria de Janones afirmou à CNN Brasil que ele nunca admitiu ter praticado “rachadinha”. O acordo encerra o caso na esfera penal se as condições forem cumpridas, sem condenação.

Em julho de 2025, o Conselho de Ética da Câmara votou pela suspensão do mandato dele por três meses, por ofensas a outros parlamentares em sessões do plenário. O PL e deputados de oposição também apresentaram pedidos de cassação; o que tratava da “rachadinha” foi arquivado pelo conselho, segundo o Poder360.
Quantos votos Janones teve em 2026
No 1º turno de 4 de outubro, Janones foi reeleito pela federação PSOL-Rede, mas com bem menos apoio: 78.780 votos, segundo os números finais do TSE. É uma queda de cerca de 160 mil votos, ou 67%, em relação a 2022. O site NC News registrou que ele ficou em 38º lugar entre os mais votados de Minas.
O que é o canal “Exército do Lula”
O canal reúne apoiadores de Lula no WhatsApp e usa vocabulário militar, com “missões” e chamadas à “tropa” para compartilhar vídeos, comentar e subir hashtags. Em 13 de outubro, tinha mais de 4 milhões de seguidores, segundo a Agência Brasil; no sábado (17), eram 4,91 milhões, segundo o Poder360.
Janones diz que o objetivo é ensinar o eleitor a usar o algoritmo das redes e nega publicar notícias falsas no canal. Do outro lado, apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) mantêm a “Tropa do Flávio”, canal ligado à campanha do senador e que não tem relação com o deputado.
Por que o TSE mandou suspender o canal
A disputa jurídica teve idas e vindas:
- Sábado (10): o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, suspendeu o canal a pedido da campanha de Flávio, que apontou divulgação de informações falsas sobre o candidato.
- Domingo (11): o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, derrubou a suspensão. Para ele, a medida não cabia em processo administrativo, porque o caso já estava numa ação judicial sob sua relatoria.
- Terça (13): Nunes Marques voltou a suspender o canal, desta vez pela falta de registro na Justiça Eleitoral. No mesmo dia, a coligação de Lula registrou o endereço do canal, mas afirmou que não passou a administrá-lo.
Um laudo técnico pedido pelo próprio TSE não encontrou desinformação nas mensagens analisadas, de 2 a 11 de outubro. O Poder360 registrou que a análise teve limites, porque parte das mensagens tinha sido apagada. Depois de se reunir com Lula no Palácio do Planalto, Janones disse a jornalistas que todas as decisões judiciais serão cumpridas.
O que muda com as novas regras do TSE
Na sexta (16), o plenário do TSE aprovou por unanimidade critérios para dizer quando um canal de mensagens está ligado a uma campanha e precisa ser registrado. Basta um sinal, entre eles uso de dinheiro ou equipe da campanha, divulgação do link em perfis oficiais ou orientação da campanha sobre o conteúdo e a frequência das postagens.
Pela nova redação da Resolução 23.610, canal criado por um apoiador de forma espontânea não entra na regra, nem a menção isolada a ele por um candidato em entrevista ou debate. Gestores e campanhas respondem pelo conteúdo, e canais com violações repetidas podem ser tirados do ar.
O que vem agora
A ação de investigação judicial eleitoral que apura suposto abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação segue com o corregedor Cueva, onde as defesas de Lula e de Janones apresentaram recurso. Até a votação de domingo (25), o canal pode publicar, mas deve identificar quem responde pela propaganda eleitoral.



