A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ainda não apresentou medidas concretas para equilibrar as contas públicas, segundo reportagem do g1 publicada nesta quarta-feira (7). O senador terminou o primeiro turno em primeiro lugar, com 47,03% dos votos, contra 45,16% do presidente Lula (PT), diferença de cerca de 2,2 milhões de votos.
Como o mercado reagiu ao resultado
Na primeira sessão depois da apuração, o Ibovespa, índice da bolsa brasileira, subiu mais de 7%, passou dos 206 mil pontos e fechou em nível recorde. O dólar caiu mais de 4% e passou a valer R$ 5, segundo o g1.
Para boa parte do mercado, o resultado aumentou a chance de um governo mais comprometido com o equilíbrio fiscal. Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV Ibre e do BTG Pactual, disse à BBC News Brasil que os investidores enxergam em um governo Flávio mais condições e vontade de fazer um ajuste rápido, o que pesa nos juros altos. Segundo ele, se Lula vencer, “as coisas pioram no mercado”, e o presidente, “um homem pragmático”, acabaria desenhando um ajuste, ainda que moderado.
Por que o otimismo pode durar pouco
Especialistas ouvidos pelo g1, entre eles consultores, um ex-ministro da Fazenda e um ex-diretor do Banco Central, avaliam que o ânimo com Flávio pode se reverter se, eleito, ele não mostrar logo medidas factíveis. Segundo o g1, mesmo sem indicações concretas, ele ganhou o benefício da dúvida do mercado.
Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, diz ser cético. Para ele, o ajuste passa por temas politicamente sensíveis, como Previdência, salário mínimo e programas sociais, e ainda não há sinais claros de que o candidato esteja disposto a enfrentá-los. Schwartsman afirma que o próximo governo terá pouco tempo para transformar expectativas em sinais concretos: “Não dá para esperar a posse. É preciso mostrar a que veio”.
O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega faz alerta parecido e vale para qualquer eleito. Segundo ele, a falta de um plano produziria um “colapso de expectativas”, com dólar e juros futuros em alta e crédito mais contido pelos bancos. O g1 observa que a maior bancada do PL no Congresso pode ajudar na articulação de reformas.
Qual é o tamanho da dívida
O endividamento do setor público, que reúne governo federal, Previdência, estados e municípios, chegou a R$ 11,05 trilhões em agosto, segundo o g1. A dívida bruta está no maior nível desde abril de 2021.

Pessôa estima em R$ 420 bilhões o gasto extra no quadriênio com a volta da valorização do salário mínimo e a reindexação dos pisos, em conta feita com um colega.
O governo Lula diz ter feito entre 2023 e 2026 um “enorme esforço fiscal” de cerca de R$ 240 bilhões, o equivalente a 2% do PIB, com mais arrecadação e contenção de gastos. O g1 lembra ainda que Lula já disse que o governo precisa focar em investimentos e parar com a “babaquice de fazer superávit”, frase que, para parte do mercado, indica menor compromisso com o ajuste.
O que pode atrapalhar a agenda econômica
Pessôa afirma que o desafio de Flávio seria ser um “presidente de direita normal”: gerir o presidencialismo de coalizão com um programa comum e poder repartido entre os aliados. Segundo ele, o PL tem 20% da Câmara e, com PP, Republicanos, União Brasil, MDB e PSD, teria dois terços, mais que os três quintos exigidos para emendas constitucionais.
As dúvidas, segundo o economista, são se Flávio fará essa gestão e quanto do capital político de início de governo irá para a agenda de libertar o pai, Jair Bolsonaro.
Coluna da Folha de S.Paulo também levanta questões sobre o tema. O texto pergunta quanto um eventual governo se dedicaria ao chamado Plano Barrabás, que a coluna descreve como a libertação de golpistas, e a mudanças na Constituição. Avalia ainda que o PIB de 2027 tende a ser baixo, que ajustes costumam ser recessivos no início e pergunta se o Congresso aceitaria um plano ou cortaria emendas.
Pessôa disse que, se Flávio vencer, tomar posse no início de janeiro e indultar o pai, o Supremo avaliaria a decisão, com grande chance, a seu ver, de entender que o indulto não se aplica ao caso.



