A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê que o El Niño atinja o pico em dezembro de 2026. A previsão, divulgada em 8 de outubro, projeta aquecimento médio de cerca de 3,7°C acima do normal na região Niño 3.4, no Pacífico equatorial, no trimestre de outubro a dezembro.
O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico na região equatorial, e o fenômeno já está em curso. Quando o calor se mantém acima da média por um período longo, ele altera a circulação da atmosfera e a distribuição de chuvas e temperaturas em vários continentes. Segundo a OMM, o fenômeno deve continuar ganhando força ao longo de novembro.
Por que se fala em “Super El Niño”?
O termo não é uma categoria oficial da meteorologia. Ele é usado para episódios de intensidade excepcional. A anomalia da região Niño 3.4 estava em cerca de 1,6°C em junho e chegou a aproximadamente 2,5°C em agosto. Em meados de outubro, a medição semanal indicava cerca de 3,3°C, segundo o International Research Institute for Climate and Society (IRI), da Universidade de Columbia.
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A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima 83% de probabilidade de que o indicador do trimestre outubro-dezembro supere os níveis dos principais episódios desde 1950. O recorde anterior, de cerca de 2,6°C, é do período de novembro de 2015 a janeiro de 2016. A confirmação de um novo recorde depende das medições até o fim do período de maior intensidade.
Vai chover mais ou menos no Brasil?
Depende da região. Os efeitos apontados nas previsões são estes:
- Sul: chuva acima da média, temporais, rios em alta e risco de enchentes.
- Norte e Nordeste: menos chuva, períodos de estiagem, calor mais forte e maior risco de queimadas.
- Sudeste e Centro-Oeste: calor acima do normal e alterações no regime de chuvas.
São possibilidades, não garantias. Um boletim do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgado em outubro, dá 95% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro.
Como fica a lavoura de hortaliças?
Um estudo de pesquisadores da Embrapa Hortaliças, sediada em Brasília, aponta que a maioria das hortaliças pede temperaturas entre 18°C e 25°C, boa qualidade de água e disponibilidade hídrica. Elas não toleram excesso de chuva nem estresse hídrico.
Com calor e seca, aumentam a evaporação e a demanda por água, o que eleva o risco de salinização do solo e de surtos de pragas. Já a chuva forte encharca o terreno, prejudica as raízes e favorece doenças fúngicas e bacterianas. “As recomendações propostas não devem ser enxergadas como uma opção pontual, mas sim como o início de uma transição na forma como se cultivam hortaliças no Brasil”, afirmou o pesquisador Marcos Brandão Braga.
Entre os grupos mais sensíveis estão as solanáceas, como tomate, pimentão e batata, afetadas por temperaturas altas no florescimento e na frutificação. Folhosas e brássicas, como alface, couve e brócolis, também aparecem entre as vulneráveis.
Que medidas o estudo recomenda ao produtor?
O trabalho lista seis eixos de atuação:
- monitorar o risco climático e as condições de cada área;
- ajustar o calendário de plantio e usar materiais genéticos mais adaptados;
- manejar água, solo e drenagem de forma integrada;
- proteger a lavoura de extremos de temperatura;
- controlar pragas e doenças com base no diagnóstico climático;
- validar tecnologias de cultivo mínimo e plantio direto de hortaliças.
Por região, o estudo indica irrigação localizada e controle de salinidade no Norte e no Nordeste. No Sul, o foco é o controle de encharcamento e de doenças. No Centro-Oeste e no Sudeste, sugere sensores de umidade, telas anti-insetos e cultivo protegido.
Calor e mortes: o que diz o estudo de Chicago
Um estudo do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, estima 26,7 mil mortes adicionais relacionadas ao calor no Brasil entre junho de 2026 e março de 2027. O número é uma estimativa estatística, calculada em comparação com o período de referência de 1996 a 2005, e não um balanço de óbitos confirmados.
Pelas projeções do IRI, as condições de El Niño devem durar até o trimestre de março a maio de 2027, com enfraquecimento gradual depois. O pico, porém, só será confirmado com as medições de dezembro.



