A produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto na comparação com julho, na série com ajuste sazonal, informou nesta sexta-feira (2) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou abaixo do piso das previsões: analistas consultados pelo Projeções Broadcast esperavam de queda de 0,5% a alta de 0,5%, com mediana de +0,1%.
Em relação a agosto de 2025, a queda foi de 1,2%. No acumulado do ano, a indústria ainda tem alta de 0,8%, e em 12 meses o avanço é de 0,6%. A média móvel trimestral recuou 0,7%.
Quais setores puxaram a queda
Dos 25 ramos pesquisados, 16 registraram queda de julho para agosto. Entre as principais influências negativas e outras quedas relevantes estão:
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- Produtos do fumo: -23,4%
- Produtos farmoquímicos e farmacêuticos: -5,5%
- Equipamentos de informática, eletrônicos e ópticos: -4%
- Confecção de artigos do vestuário e acessórios: -3,3%
- Outros equipamentos de transporte: -2,9%
- Produtos de borracha e de material plástico: -1,8%
- Produtos de metal: -1,6%
As indústrias extrativas tiveram o quarto resultado negativo seguido, com queda de 0,7%.
Nove ramos avançaram. A principal influência positiva veio de produtos alimentícios (+1%). Também cresceram produtos diversos (+8,4%), produtos químicos (+0,9%) e metalurgia (+0,8%).
Todas as grandes categorias recuaram no mês:
- Bens de consumo: -1,5% (duráveis, -1%; semi e não duráveis, -1,7%)
- Bens de capital (máquinas e equipamentos): -0,6%
- Bens intermediários (insumos): -0,2%
Por que o fumo despencou
André Macedo, gerente da pesquisa no IBGE, disse que a atividade de produtos do fumo pesa cerca de 1% na indústria, mas o tamanho da queda de agosto teve impacto relevante no total. Nos quatro meses anteriores, o segmento havia acumulado alta de 32,5%. “A queda de agosto praticamente elimina esse ganho”, afirmou.
Macedo citou como possíveis fatores “algum tipo de antecipação de safra” e efeitos do clima em agosto. Ele ponderou que não dá para afirmar que o reajuste do cigarro, em vigor desde 1º de agosto, explique sozinho o resultado.

Quatro meses devolvem parte do ganho do início do ano
De maio a agosto, a indústria acumulou perda, segundo Macedo, que devolveu parte dos ganhos de 4,3% de janeiro a abril. Os números divulgados variam entre as fontes: uma menciona queda de 3,4% no período e outra, de 3,1%. Por mês, o setor caiu 1% em maio e 1,6% em junho, subiu 0,1% em julho e recuou 0,6% em agosto.
O técnico afirmou que a queda de agosto foi a mais intensa para o mês desde agosto de 2022 (-1,4%). Ele também apontou a política monetária restritiva como fator importante. Mesmo com cortes, os juros seguem em patamar elevado, o que pesa sobre a inadimplência e o endividamento de famílias e empresas, e leva as companhias a adiar decisões de investimento.
Macedo lembrou que o mercado de trabalho segue resiliente, com número recorde de pessoas ocupadas e crescimento da massa de rendimentos.
A indústria está 1,3% acima do nível de fevereiro de 2020, antes da pandemia. A distância chegou a 4,6% em abril de 2026. Em relação ao ponto mais alto da série, de maio de 2011, o setor segue 15,6% abaixo.
O que dizem Fiesp e economista
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) afirmou, em nota, que o recuo “surpreendeu negativamente” e que o quadro à frente não sinaliza recuperação capaz de se manter nos próximos meses. Segundo a entidade, o Indicador Antecedente da Indústria de Transformação e os indicadores de confiança apontam continuidade da fraqueza.
A Fiesp disse que programas como a ampliação da isenção do Imposto de Renda, o Minha Casa, Minha Vida e o Move Brasil impulsionam segmentos específicos, mas não têm sido suficientes para compensar os juros elevados, que encarecem o crédito e restringem consumo e investimento. A federação também citou a inadimplência e o endividamento das famílias e as tarifas dos Estados Unidos como fontes de pressão.
Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, a indústria caminha para contribuir negativamente com o PIB do terceiro trimestre. Ele avalia que eventuais surpresas positivas dependem exclusivamente da demanda externa por petróleo e derivados, em meio à guerra e à incerteza sobre o estreito de Ormuz. Segundo Pizzani, caberá aos serviços evitar uma retração do PIB no período, hipótese que, em sua avaliação, ganha probabilidade à medida que os dados de atividade vêm abaixo do esperado.



