O acordo anunciado em outubro entre os governos dos Estados Unidos e do Paraguai para instalar um centro de dados de inteligência artificial ao lado de Itaipu reabriu uma pergunta antiga no setor elétrico brasileiro: o que acontece quando o Paraguai passa a consumir a energia que hoje sobra e é vendida ao Brasil?
O projeto é da americana Crusoe, especializada em infraestrutura para IA, em parceria com a paraguaia Araico. Segundo a própria Crusoe, a primeira etapa deve entrar em operação em meados de 2027, com 106 megawatts (MW) de capacidade de TI, e pode chegar a cerca de 280 MW no longo prazo. A energia virá da hidrelétrica binacional.
O que foi anunciado
O acordo foi apresentado durante a visita do vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, ao Paraguai, na semana de 19 de outubro, quando ele se reuniu com o presidente Santiago Peña. Landau disse que o empreendimento pode ser o maior investimento privado estrangeiro da história do país vizinho. O comunicado do governo americano não cita o Brasil.
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- Quem: Crusoe (EUA), que vai operar a computação, e Araico (Paraguai), que cuida do terreno e da infraestrutura local.
- Onde: no lado paraguaio, ao lado de uma subestação de Itaipu.
- Quando: primeira fase prevista para meados de 2027.
- Quanto de energia: 106 MW na primeira escala e opção de chegar a cerca de 280 MW.
- Preço: segundo dados da estatal paraguaia ANDE publicados pelo jornal ABC Color e reproduzidos pelo InfoMoney, o valor inicial é de US$ 48 por megawatt, com reajuste anual de 2,5%.
Na mesma viagem, os dois países assinaram um acordo de interceptação aérea contra voos suspeitos de narcotráfico e abriram conversas sobre cooperação nuclear civil.
Como funciona a divisão da energia de Itaipu
Pelo Tratado de Itaipu, assinado em 1973, cada país tem direito a metade da energia gerada pela usina. Como o Paraguai consome bem menos do que a sua parte, o que sobra é cedido ao Brasil. O Anexo C do tratado, que trata das bases financeiras da usina, define as regras e o preço dessa cessão.
Na prática, Itaipu atende cerca de 90% do mercado elétrico paraguaio e perto de 7% do brasileiro, segundo dados citados pela Gazeta do Povo. O mesmo levantamento, do Instituto Acende Brasil, mostra que o consumo paraguaio vem subindo: o país ficou com 23% da produção da usina em 2023 e com 36% em 2025. A projeção do instituto é que o Paraguai chegue ao teto de 50% por volta de 2030, e o centro de dados tende a acelerar esse caminho.
O acordo com os EUA fere o tratado?
Pelo que se sabe até agora, não. O Instituto Acende Brasil avalia, segundo a Gazeta do Povo, que a restrição do tratado vale para a venda do excedente a outros países ou em leilões no mercado brasileiro. Uma empresa instalada em território paraguaio e abastecida pela cota do Paraguai, nesse entendimento, é consumo interno.

A própria Itaipu Binacional informou ao jornal que a negociação não interfere na demanda de cada país e que projetos desse tipo não são de sua competência. A consultora Suelen Raizer, da Frontexa, disse ao portal Cenário Energia que ainda não há sinal de mudança na divisão da energia nem na cessão da parte não utilizada.
O Brasil vai ficar sem energia?
Não há risco de falta. O que muda, a médio prazo, é que o Brasil deve receber cada vez menos energia paraguaia de Itaipu e precisará repor esse volume com outras fontes. Claudio Sales, presidente do Acende Brasil, afirma que o país tem eólica, solar, hidrelétricas, térmicas a gás e biomassa suficientes para absorver a perda.
Luiz Eduardo Barata, da Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE), cobra planejamento. Para ele, deixar a substituição para a última hora tende a levar a soluções mais caras para o consumidor.
E a conta de luz?
O efeito direto na tarifa ainda não foi calculado por nenhum órgão oficial. O ponto sensível é o preço de Itaipu, que está em renegociação. O custo de referência da usina, o Cuse, está em US$ 19,28 por kW/mês desde 2024. As distribuidoras brasileiras pagam menos que isso porque o lado brasileiro cobre a diferença, com cerca de US$ 300 milhões por ano, segundo a Agência iNFRA.
Em abril, o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Enio Verri, disse que a tarifa de 2027 será menor e que o governo mira algo entre US$ 10 e US$ 12 por kW/mês. O Paraguai resiste, porque a venda do excedente ao Brasil é fonte de receita para o país.
O que está em jogo na revisão do Anexo C
A revisão do Anexo C está prevista desde 2023, quando a dívida de construção da usina foi quitada. As conversas foram interrompidas em 2025, depois de suspeitas paraguaias de espionagem pela Abin, e retomadas após encontro de Lula e Peña na cúpula do Mercosul, em Buenos Aires.
Segundo a Agência iNFRA, o fim da obrigação de vender o excedente ao Brasil já é tratado como ponto pacífico na mesa. Isso permitiria ao Paraguai negociar sua sobra no mercado livre, inclusive com empresas como a do centro de dados. Peña quer fechar a revisão ainda este ano.
Próximos passos
- Até o fim de 2026: Brasil e Paraguai tentam concluir a revisão do Anexo C e definir a tarifa de Itaipu para 2027.
- Meados de 2027: previsão de início da primeira fase do centro de dados da Crusoe e da Araico.
- Até 2030: projeção do Acende Brasil para o Paraguai passar a usar toda a sua metade da usina.



