O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, de 52 anos, é o primeiro na linha de sucessão de Santiago Peña, que anunciou a renúncia nesta quinta-feira (5) em um vídeo publicado pouco depois das 13h, no auge da crise provocada pelo colapso do Ueno Bank. A posse de Alliana chegou a ser prevista para as 18h, mas a sessão conjunta do Congresso que analisaria a renúncia foi encerrada sem quórum depois que parlamentares governistas deixaram o plenário, segundo os jornais paraguaios La Nación e El Nacional. Peña continua no cargo, e Alliana segue como vice.
O caminho para a sucessão foi aberto horas antes, quando a Câmara dos Deputados rejeitou o pedido de impeachment contra o próprio Alliana: foram 30 votos a favor e 48 contra. Na mesma sessão, os 78 deputados presentes aprovaram por unanimidade a acusação contra Peña por mau desempenho de funções, que seguiu para o Senado.
Quem é Pedro Alliana?
Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez nasceu em 19 de fevereiro de 1974 em Pilar, capital do departamento de Ñeembucú, no sul do Paraguai, na fronteira com a Argentina. É filho de dois ex-conselheiros departamentais, casado com Fabiana María Souto e pai de quatro filhos. Na juventude, jogou basquete e chegou a integrar a seleção paraguaia em 1991.
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Antes da política, trabalhou no comércio da cidade natal. Pelo registro do Ministério da Educação paraguaio, é formado em Relações Internacionais pela Universidade Autônoma San Sebastián, informação que já foi alvo de questionamentos públicos, segundo o jornal argentino Ámbito.
Qual é a carreira política dele?
- 2006: disputa a prefeitura de Pilar pelo Partido Colorado e perde;
- 2008 a 2013: governador de Ñeembucú;
- 2013 a 2023: deputado federal por Ñeembucú, por dois mandatos;
- 2015 a 2023: presidente do Partido Colorado (ANR), o partido que governa o Paraguai há décadas;
- 2019 a 2022: presidente da Câmara dos Deputados;
- Desde agosto de 2023: vice-presidente, eleito na chapa de Santiago Peña.
Qual a relação de Alliana com Horacio Cartes?
Alliana cresceu dentro do movimento Honor Colorado, a ala do partido liderada pelo ex-presidente Horacio Cartes, hoje presidente da legenda. Foi Cartes quem o levou à chapa de 2023. Segundo o Ámbito, os dois passaram mais de um mês afastados recentemente por divergências sobre a chapa governista para 2028, mas voltaram a se reunir nesta quinta na sede do partido para discutir a sucessão.
O peso de Cartes ficou claro durante a crise. Em comunicado, ele anunciou apoio ao impeachment de Peña, de quem foi padrinho político, e disse que o partido não ficaria “do lado do latrocínio dos fundos públicos, privados e dos aposentados”, conforme reproduziu o jornal argentino La Nación. A bancada colorada, por outro lado, blindou Alliana.
Por que Alliana escapou do impeachment?
A oposição tentou incluir o vice no processo, mas a maioria governista rejeitou a acusação. Segundo o jornal argentino Los Andes, os deputados entenderam que Alliana não tinha poder legal nem participação direta nas decisões que levaram à crise financeira, e que era preciso garantir a previsibilidade da linha sucessória.

A Constituição do Paraguai determina que, em caso de renúncia, destituição, morte ou incapacidade do presidente, o vice assume e completa o período. Por isso, se for empossado, Alliana fica no cargo até 15 de agosto de 2028.
O que é a crise do Ueno Bank?
O Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank na terça-feira (3), quando a solvência da instituição caiu a menos da metade do mínimo exigido, informou a Gazeta do Povo. São 2,9 milhões de correntistas num país com 6,1 milhões de habitantes, e o congelamento prendeu também recursos de órgãos públicos, entre eles o IPS, a previdência social paraguaia.
Peña admitiu no ano passado ter investido na Ueno Holding, ligada ao grupo controlador do banco, e afirma ter vendido sua participação e não ter mais vínculo com o grupo. No vídeo de renúncia, pediu desculpas “se, em algum momento, falhei”.
Por que a oposição não queria aceitar a renúncia?
Pela lei paraguaia, ex-presidentes eleitos se tornam senadores vitalícios, com foro especial. Parlamentares de oposição argumentaram na sessão conjunta desta quinta que aceitar a renúncia daria a Peña essa proteção diante das investigações do Ministério Público sobre o caso Ueno. A senadora Yolanda Paredes e a deputada Johanna Ortega defenderam que o impeachment seguisse até a destituição, segundo o jornal ABC Color. O presidente do Congresso, Basilio “Bachi” Núñez, defendeu aceitar a renúncia logo para “evitar que siga a agonia dos poupadores”.
O que acontece agora?
A renúncia ficou pendente, e o impeachment aprovado pela Câmara segue para o Senado. Segundo a senadora Celeste Amarilla, citada pelo La Nación, o Senado deve se reunir nesta sexta-feira (6). Se a renúncia for aceita ou Peña for destituído, o próximo passo é a posse de Alliana e a escolha do novo vice-presidente pelo Congresso. Os nomes citados pela imprensa paraguaia são os dos senadores Antonio Barrios e Gustavo Leite. O novo governo herda a tarefa de devolver o dinheiro dos clientes do Ueno, que Peña defendeu ser feito pelo Fundo de Garantia de Depósitos. A próxima eleição presidencial no Paraguai está marcada para 2028.
Atualização (05/11, 19h20): a sessão conjunta do Congresso foi encerrada sem quórum, sem votar a renúncia; Peña continua no cargo e Alliana não tomou posse.



